CONTRIBUIÇÃO PARA A DISCUSSÃO SOBRE

A UNIVERSIDADE E A CULTURA

 

 

Humberto Aparecido de Oliveira Guido*

 

 

            O tema deste Seminário é o ensejo para o debate sobre a função da Universidade Federal de Uberlândia na vida cultural brasileira, o que demanda a discussão de dois problemas antigos: a) a universidade é/deve ser produtora de culturas?, ou, b) a universidade é/deve ser o espaço de criação cultural?

 

            Embora, à primeira vista, possa não existir diferença entre as frases acima, tão pouco parece haver discrepância entre as palavras produtora e criação, pois, aparentemente ambas denotam significado unívoco: produzir é o mesmo que criar. Muito mais que distinções semânticas, merece atenção o fato de que a instituição produtora de cultura reduz a arte a um produto destinado ao comércio no grande mercado dos bens simbólicos. Em contrapartida, a palavra criação significa força vital, é a construção incessante do significado humano da existência no mundo, cujo esforço permite a manutenção do universo cultural, sem que tal resultado seja necessariamente uma mercadoria.

 

            As definições acima antecipam a posição da FAFCS neste debate permanente sobre a construção coletiva das políticas de culturas na UFU. A FAFCS é uma unidade acadêmica dedicada à criação artística e cultural, constituindo-se no espaço aberto à experimentação e à pesquisa nos vastos domínios das artes e das humanidades; enquanto espaço aberto, essas atividades proporcionam, também, a prática das manifestações culturais, sejam elas populares, eruditas ou marginais, isto é, aquelas manifestações que se colocam de fora dos parâmetros da arte como técnica, e da arte como manifestação espontânea do imaginário popular.

 

            Para que tantas atividades integradas sejam realizadas, passando a fazer parte do cotidiano, é preciso que haja uma infra-estrutura de ensino capaz de abarcar a complexidade das culturas. Ao contrário do que muitos pensam, o ensino é fundamental para o desenvolvimento de ensaios, da experimentação e da pesquisa sobre as matrizes culturais brasileiras. Não é possível a criação cultural sem o ensino de qualidade, pois do contrário, o espaço de criação está comprometido, porque sem o acesso às técnicas de composição os estudantes não terão a real dimensão do mundo da cultura e a sua formação ficará comprometida, restando-lhes somente a tênue reprodução de fórmulas, muitas vezes, esgotadas, que são as mais acessíveis por não demandar experimentação e elaboração; enfim, sem a atenção necessária à educação artística, no lugar da criação o ensino deficiente produz o simulacro.

 

            É consenso que ensino, pesquisa e extensão são momentos indissociáveis, sendo impossível qualquer pesquisa rigorosa quando o estudante não tem acesso ao que já é parte integrante do patrimônio cultural; sem a memória cultural não há condições para a experimentação; sem o domínio das técnicas elementares da criação artística, as atividades de extensão não irão além do entretenimento. É impossível até mesmo a preservação do acervo cultural, uma vez que não haverá critério para a análise do que é cultura e do que é mercadoria da indústria cultural, prejudicando o levantamento das fontes originais da cultura brasileira. É sofisma propor ações voltadas para a promoção de culturas quando a cultura universitária não é fomentada, ficando à mingua os ateliês, as salas de ensaio, os laboratórios, fazendo sucumbir de inanição o Museu Universitário de Artes.

 

            Retornando ao argumento inicial, de que a universidade não é produtora, mas criadora de culturas, é correto afirmar também que a universidade não pode associar política de culturas com a promoção da cultura de mercado. Esta observação vem reforçar a defesa do ensino das artes na universidade, porque a universidade não é um patronato, tal como foram no passado as casas reais, a Igreja e as famílias abastadas da burguesia, que patrocinavam, protegiam, financiavam e divulgavam os seus artistas prediletos em troca da subserviência e, muitas vezes, da adulação.

 

            A universidade enquanto instituição social não deve estar preocupada com a promoção e o patrocínio das culturas do mercado, por exemplo, trazendo para Uberlândia artísticas de renome da indústria fonográfica, mesmo que seja um Caetano Veloso, um Chico Buarque. A realização de shows, espetáculos, mostras e instalações de bienais de artistas consagrados não devem ser as metas da política de culturas de uma universidade, menos ainda de uma universidade interiorana que tem a prerrogativa de ser agente cultural de emancipação da sociedade regional, amenizando, se não pode erradicar, o abandono das comunidades interioranas, integrando-as à vida nacional.

 

            As prerrogativas de instituição social, subsidiada pelo erário público, deve fazer com que a universidade tenha justamente no público a sua finalidade. Este é outro aspecto delicado da participação da universidade no mundo da cultura. A universidade é subvencionada pelo poder estatal, porém, deve ter autonomia para não agir como aparelho de reprodução da ideologia dos grupos hegemônicos que detêm o poder de Estado. Este argumento parece superado, contudo, não é questão totalmente vencida. O século XX ofereceu uma noção mais nítida do que é a arte engajada, responsável pela divulgação do ideário dos regimes políticos de plantão. Tanto nas experiências de extrema direita, como o nazismo, quanto nas manifestações da extrema esquerda, como URSS e China, ficou evidente a descaracterização das artes, seja por se fazer delas uma arma de propaganda fascista, no primeiro caso, seja pela censura exercida pelo aparelho estatal, no segundo caso. Moral da história, arte não é propaganda, e não há arte sem liberdade de expressão.

 

            Deixando de lado as boas intenções, a arte engajada é, ou foi, propaganda ideológica deste ou daquele sistema, esta lição é suficiente para manter a universidade imune ante as investidas do poder estatal, que pelo fato de subsidiar a universidade pode querer avorar-se em ser o seu mecenas. Este raciocínio é falacioso, pois, é a população brasileira que financia a universidade.

 

            O público almejado pela universidade é, então, a população brasileira, e a tarefa da universidade é a formação da opinião pública, que no Brasil fica a cargo dos meios de comunicação de massa, cujo propósito é a alienação das camadas populares, incutindo-lhes o status quo como realidade imutável e impossível de ser mudada. A universidade como formadora da opinião pública deve atuar no sentido oposto aos meios de comunicação; é esperado da universidade a promoção da pluralidade artística peculiar à pluralidade cultural do povo brasileiro, tendo nesta pluralidade a estratégia capaz de romper com o gosto mediano sutilmente induzido pela indústria cultural. A universidade fará jus à sua função social e honrará o investimento público quando atuar desencadeando ações voltadas para o fazer cultural em contraposição à inércia consumista da cultura de massas.

 

            Quando se discute construção coletiva de políticas de culturas na UFU, não significa buscar estratagemas para competir com a indústria do entretenimento, trazendo para dentro dos campi, ou mesmo fora deles, artistas do mercado, ou aqueles semi-profissionais que reproduzem a estética do mercado, para estes já existe a mídia que faz com muito mais eficiência aquilo que a universidade poderia fazer se não tivesse outra política de culturas além do espetáculo. É possível e muito mais salutar pensar as culturas fora da mídia, é preciso pensá-las sem confundi-las com a sociedade do espetáculo que cultua e lucra com o simulacro, com o pastiche, com a paródia, com a cópia.

 

            Da universidade é esperado muito, ela será agente cultural quando promover o debate cultural, garantir o acesso da população às mais variadas manifestações artísticas e culturais que aqui são preservadas pelos estudantes e docentes; é esperado da universidade a ampliação das atividades de extensão cujos propósitos sejam a experimentação e a criação artística com o envolvimento da comunidade externa em atividades que resultem no fazer artes: na música, nas artes plásticas, e também nas outras formas de cultura, como a literatura, a dança, o teatro, entre outras. Estas atividades são as autênticas políticas públicas de culturas que a UFU pode almejar.

 

            Aqui está o divisor de águas: os propósitos nobres acima mencionados são meros ideais inatingíveis, ou poderão se constituir em prática cotidiana da instituição social? De fato, é muito oneroso para a universidade a manutenção das atividades culturais. Não há entre os professores, alunos e técnicos administrativos da FAFCS a ingenuidade de pensar que a manutenção de cursos regulares de Música, Artes Cênicas, Artes Plásticas, que juntos aglutinam as mais variadas manifestações artísticas e culturais, seja algo que não exige grande dispêndio por parte do poder estatal.

 

            É preciso ousadia para enfrentar as dificuldades para a implantação de um projeto permanente de culturas; ouso dizer que a dificuldade maior é ouvir o coro daqueles que consideram o funcionamento dos cursos diretamente ligados às manifestações culturais, bem o o Museu Universitário de Arte, como luxos dispensáveis para uma universidade periférica, que tem outros desafios mais urgentes a serem vencidos; essas mesmas vozes sentenciam que a cultura, isto é, aquilo que eles pensam que seja cultura, deve ficar a cargo do mercado, ou seja, da iniciativa privada.

 

            A cultura é elemento vital da existência humana, não é simples perfumaria, dispensável, quando o essencial é parco. As cantilenas, por ignorância ou por ma fé, evidenciam o quão distante do presente está a sociedade emancipada que a população brasileira merece e almeja. Uma universidade, cuja comunidade, ou parte dela, considera as culturas perfumarias, não tem identidade, não chegará a ser grande universidade, pois, a preservação do patrimônio cultural é a condição primeira para a autonomia intelectual, da universidade e da sociedade. Como foi dito há pouco, é oneroso o projeto político educacional para a sustentação de cursos de artes, porém, a construção coletiva de política de culturas na UFU começa com a promoção do ensino de excelência não só no hospital universitário, mas também nos ateliês, salas de ensaio, laboratórios e museus universitários. Certamente, não há comparação entre o orçamento de um hospital escola e o funcionamento de um ateliê, ou de um museu, mas, deixar de destinar anualmente um aporte de recursos compatível com as peculiaridades das atividades artísticas é muito injusto. Por que os recursos geradas pelos projetos de extensão que captam recursos financeiros externos, não podem ser destinados a um fundo exclusivo de cultura? Afinal, tal curso é oferecido sob os auspícios da PROEX, e suas receitas poderiam ser revertidas também para a manutenção das áreas cuja identidade com a promoção das culturas é direta. Porém, os poucos recursos da PROEX, em recente edital, foram destinados, na sua maior parte, para projetos de ensino. É evidente que não houve grande demanda das áreas de culturas, mas, tal fato merece atenção, é preciso indagar por que a extensão está muito identificada com atividades de ensino e, exceção ao Grupo de dança Badaiô, quase nada com as artes e as culturas. Este fato recente não pode ser desconsiderado, seria importante a PROEX e a DICULT atuarem de maneira a induzir a elaboração de projetos de extensão que estejam diretamente voltados para as culturas.

 

            É preciso que a construção coletiva de política de culturas contemple a melhoria ds condições de funcionamento dos cursos de artes, pois, são estes cursos os responsáveis pela criação artística, eles envolvem um grupo numeroso de alunos e professores, cujas atividades estão voltadas para vida cultural brasileira. A política de culturas continuará sendo uma quimera, um bom tema para seminários como este, enquanto perdurar a mentalidade privatizante que sustenta a fragmentação da UFU, uma instituição social que deveria ser a promotora da unidade da diversidade das áreas do conhecimento humano, ao invés disso, os três últimos anos têm mostrado a escalada do isolamento dessas áreas, que inviabilizam a manutenção das atividades fins da universidade, dificultam a administração e o planejamento estratégico de todas as atividades, inviabilizando projetos que poderiam ser aglutinadores de ações e de recursos públicos. A crise financeira faz com que algumas prioridades sejam eleitas em detrimento de tantas outras, até mesmo a subvenção de eventos estudantis é vista como mais prioritária, neste momento, que o bom funcionamento dos museus universitários. Brigar por migalhas é algo que coloca o beligerante abaixo da mediocridade, portanto, não se constrói projeto cultural coletivo quando há uma escala de prioridades previamente fixadas, pois, tudo é prioritário na universidade, de outra maneira, não seria universidade, seria empresa privada. Enquanto a comunidade universitária não descobrir que possui cursos de artes, museus, ela não dará importância para o projeto de construção coletiva da universidade.

 

            A universidade, apesar do desconhecimento da enorme maioria, possui uma vida cultural intensa, não se trata da cultura do espetáculo, da subserviência à mídia para estar em evidência. Desde a sua fundação e apesar das dificuldades financeiras e estruturais da UFU, o Muna mantém uma programação anual variada e que privilegia o fazer artístico, oferecendo oficinas e cursos instrumentais de curta duração nas mais diversas áreas das artes; promove ciclos de filmes de arte acompanhados de debates; possui uma galeria para exposição de trabalhos de artistas plásticos locais e do corpo docente da UFU, dando a merecida visibilidade para a criação artística local e regional. Todas as atividades são abertas ao público, principalmente crianças e adolescentes do ensino básico. O Muna tenta reverter a lógica irracional do sistema que segrega as camadas populares, dando-lhes migalhas de cultura: o cinema hollywoodiano no lugar do teatro, a música comercial no lugar das grandes audições eruditas e dos espetáculos de música e dança populares. Provavelmente, aqueles que consideram as artes perfumaria, desconhecem o dia a dia dos cursos de artes e dos seus Museus. Cultura para este segmento é flanar no Centershoping para depois assistir as diversas fitas destinadas à apologia da violência — Matrix, Esterminadores, etc. —, ir até Brasília para ouvir J Quest, Fernanda Abreu e outros ícones das gravadoras.

 

            É triste saber que estes cursos que tiveram o privilégio de ter entre seus docentes artistas de renome internacional — Babinski, Maestro Camargo Guarnieri, Lucimar Bello, Edmar Ferreti — sejam tão pouco reconhecidos pela comunidade universitária.

 

            Enquanto esta mesma comunidade universitária não entender que a cultura, naquilo que ela tem de criação artística, é algo que demanda recursos e merece o mesmo cuidado que as outras atividades universitárias, corre-se o risco do esvaziamento da universidade, hoje são as culturas que são suplantadas, amanhã as tecnologias, pois, os laboratórios das empresas multinacionais são mais eficientes que as instalações jurássicas das universidades. Enfim, sem culturas não haverá resistência ao desmanche da identidade nacional, aí então, o coro dos empreendedores universitários farão eco a Medéia que, após matar os filhos, não parou mais de chorar, não por tê-los matado, mas porque não teria ninguém para assisti-la em sua velhice.

 

 

 



* Professor Adjunto do Departamento de Filosofia; Diretor da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia.