CONTRIBUIÇÃO PARA A DISCUSSÃO SOBRE
A UNIVERSIDADE E A CULTURA
O tema deste
Seminário é o ensejo para o debate sobre a função da Universidade Federal de
Uberlândia na vida cultural brasileira, o que demanda a discussão de dois
problemas antigos: a) a universidade é/deve ser produtora de culturas?, ou, b)
a universidade é/deve ser o espaço de criação cultural?
Embora, à primeira
vista, possa não existir diferença entre as frases acima, tão pouco parece haver
discrepância entre as palavras produtora e criação, pois, aparentemente ambas
denotam significado unívoco: produzir é o mesmo que criar. Muito mais que
distinções semânticas, merece atenção o fato de que a instituição produtora de
cultura reduz a arte a um produto destinado ao comércio no grande mercado dos
bens simbólicos. Em contrapartida, a palavra criação significa força vital, é a
construção incessante do significado humano da existência no mundo, cujo
esforço permite a manutenção do universo cultural, sem que tal resultado seja
necessariamente uma mercadoria.
As definições acima
antecipam a posição da FAFCS neste debate permanente sobre a construção
coletiva das políticas de culturas na UFU. A FAFCS é uma unidade acadêmica
dedicada à criação artística e cultural, constituindo-se no espaço aberto à
experimentação e à pesquisa nos vastos domínios das artes e das humanidades;
enquanto espaço aberto, essas atividades proporcionam, também, a prática das
manifestações culturais, sejam elas populares, eruditas ou marginais, isto é,
aquelas manifestações que se colocam de fora dos parâmetros da arte como
técnica, e da arte como manifestação espontânea do imaginário popular.
Para que tantas
atividades integradas sejam realizadas, passando a fazer parte do cotidiano, é
preciso que haja uma infra-estrutura de ensino capaz de abarcar a complexidade
das culturas. Ao contrário do que muitos pensam, o ensino é fundamental para
o
desenvolvimento de ensaios, da experimentação e da pesquisa sobre as matrizes
culturais brasileiras. Não é possível a criação cultural sem o ensino de
qualidade, pois do contrário, o espaço de criação está comprometido, porque sem
o acesso às técnicas de composição os estudantes não terão a real dimensão do
mundo da cultura e a sua formação ficará comprometida, restando-lhes somente
a
tênue reprodução de fórmulas, muitas vezes, esgotadas, que são as mais acessíveis
por não demandar experimentação e elaboração; enfim, sem a atenção necessária
à
educação artística, no lugar da criação o ensino deficiente produz o simulacro.
É consenso que
ensino, pesquisa e extensão são momentos indissociáveis, sendo impossível
qualquer pesquisa rigorosa quando o estudante não tem acesso ao que já é
parte integrante do patrimônio cultural; sem a memória cultural não
há condições
para a
experimentação;
sem
o
domínio das técnicas elementares da criação artística, as atividades de
extensão não irão além do entretenimento. É impossível até mesmo a preservação
do acervo cultural, uma vez que não haverá critério para a análise do que é
cultura e do que é mercadoria da indústria cultural, prejudicando o
levantamento das fontes originais da cultura brasileira. É sofisma propor ações
voltadas para a promoção de culturas quando a cultura universitária não é
fomentada, ficando à mingua os ateliês, as salas de ensaio, os laboratórios,
fazendo sucumbir de inanição o Museu Universitário de Artes.
Retornando ao
argumento inicial, de que a universidade não é produtora, mas criadora de
culturas, é correto afirmar também que a universidade não pode associar
política de culturas com a promoção da cultura de mercado. Esta observação vem
reforçar a defesa do ensino das artes na universidade, porque a universidade
não é um
patronato, tal como foram no passado as casas reais, a Igreja e as famílias
abastadas da burguesia, que patrocinavam, protegiam, financiavam e divulgavam
os seus artistas prediletos em troca da subserviência e, muitas vezes, da
adulação.
A universidade
enquanto instituição social não deve estar preocupada com a promoção e o
patrocínio das culturas do mercado, por exemplo, trazendo para Uberlândia
artísticas de renome da indústria fonográfica, mesmo que seja um Caetano
Veloso, um Chico Buarque. A realização de shows, espetáculos, mostras e
instalações de bienais de artistas consagrados não devem ser as metas da
política de culturas de uma universidade, menos ainda de uma universidade
interiorana que tem a prerrogativa de ser agente cultural de emancipação da
sociedade regional, amenizando, se não pode erradicar, o abandono das
comunidades interioranas, integrando-as à vida nacional.
As prerrogativas de
instituição social, subsidiada pelo erário público, deve fazer com que a
universidade tenha justamente no público a sua finalidade. Este é outro aspecto
delicado da participação da universidade no mundo da cultura. A universidade é
subvencionada pelo poder estatal, porém, deve ter autonomia para não agir como
aparelho de reprodução da ideologia dos grupos hegemônicos que detêm o poder
de
Estado. Este argumento parece superado, contudo, não é questão totalmente
vencida. O século XX ofereceu uma noção mais nítida do que é a arte engajada,
responsável pela divulgação do ideário dos regimes políticos de plantão. Tanto
nas experiências de extrema direita, como o nazismo, quanto nas manifestações
da extrema esquerda, como URSS e China, ficou evidente a descaracterização das
artes, seja por se fazer delas uma arma de propaganda fascista, no primeiro caso,
seja pela censura exercida pelo aparelho estatal, no segundo caso. Moral da
história, arte não é propaganda, e não há arte sem liberdade de expressão.
Deixando de lado as
boas intenções, a arte engajada é, ou foi, propaganda ideológica deste ou
daquele sistema, esta lição é suficiente para manter a universidade imune
ante as investidas do poder estatal, que pelo fato de subsidiar a universidade
pode querer avorar-se em ser o seu
mecenas.
Este raciocínio é falacioso, pois, é a população brasileira que financia a
universidade.
O público almejado
pela universidade é, então, a população brasileira, e a tarefa da universidade
é a formação da opinião pública, que no Brasil fica a cargo dos meios de
comunicação de massa, cujo propósito é a alienação das camadas populares,
incutindo-lhes o status quo como
realidade imutável e impossível de ser mudada. A universidade como formadora da
opinião pública deve atuar no sentido oposto aos meios de comunicação; é
esperado da universidade a promoção da pluralidade artística peculiar à
pluralidade cultural do povo brasileiro, tendo nesta pluralidade a estratégia
capaz de romper com o gosto mediano sutilmente induzido pela indústria
cultural. A universidade fará jus à sua função social e honrará o investimento
público quando atuar desencadeando ações voltadas para o fazer cultural em
contraposição à inércia consumista da cultura de massas.
Quando se discute
construção coletiva de políticas de culturas na UFU, não significa buscar
estratagemas para competir com a indústria do entretenimento, trazendo para
dentro dos campi, ou mesmo fora deles,
artistas do mercado, ou aqueles semi-profissionais que reproduzem a estética
do
mercado, para estes já existe a mídia que faz com muito mais eficiência aquilo
que a universidade poderia fazer se não tivesse outra política de culturas além
do espetáculo. É possível e muito mais salutar pensar as culturas fora da
mídia, é preciso pensá-las sem confundi-las com a sociedade do espetáculo que
cultua e lucra com o simulacro, com o pastiche, com a paródia, com a cópia.
Da universidade é
esperado muito, ela será agente cultural quando promover o debate cultural,
garantir o acesso da população às mais variadas manifestações artísticas e
culturais que aqui são preservadas pelos estudantes e docentes; é esperado da
universidade a ampliação
das
atividades
de
extensão cujos propósitos sejam a experimentação e a criação artística com o
envolvimento da comunidade externa em atividades que resultem no fazer artes:
na
música, nas
artes plásticas, e também nas outras formas de cultura, como a literatura,
a
dança, o teatro, entre outras. Estas atividades são as autênticas políticas
públicas de culturas que a UFU pode almejar.
Aqui está o divisor
de águas: os propósitos nobres acima mencionados são meros ideais inatingíveis,
ou poderão se constituir em prática cotidiana da instituição social? De fato, é
muito oneroso para a universidade a manutenção das atividades culturais. Não há
entre os professores, alunos e técnicos administrativos da FAFCS a ingenuidade
de pensar que a manutenção de cursos regulares de Música, Artes Cênicas, Artes
Plásticas, que juntos aglutinam as mais variadas manifestações artísticas e
culturais, seja algo que não exige grande dispêndio por parte do poder estatal.
É preciso ousadia
para enfrentar as dificuldades para a implantação de um projeto permanente de
culturas; ouso dizer que a dificuldade maior é ouvir o coro daqueles que
consideram o funcionamento dos cursos diretamente ligados às manifestações
culturais, bem o o Museu Universitário de Arte, como luxos dispensáveis
para uma universidade periférica, que tem outros desafios mais urgentes a serem
vencidos; essas mesmas vozes sentenciam que a cultura, isto é, aquilo que eles
pensam que seja cultura, deve ficar a cargo do mercado, ou seja, da iniciativa
privada.
A cultura é elemento
vital da existência humana, não é simples perfumaria, dispensável, quando o
essencial é parco. As cantilenas, por ignorância ou por ma fé, evidenciam o
quão distante do presente está a sociedade emancipada que a população
brasileira merece e almeja. Uma universidade, cuja comunidade, ou parte dela,
considera as culturas perfumarias, não tem identidade, não chegará a ser grande
universidade, pois, a preservação do patrimônio cultural é a condição primeira
para a autonomia intelectual, da universidade e da sociedade. Como foi dito há
pouco, é oneroso o projeto político educacional para a sustentação de cursos
de
artes, porém, a construção coletiva de política de culturas na UFU começa com
a
promoção do ensino de excelência não só no hospital universitário, mas também
nos ateliês, salas de ensaio, laboratórios e museus universitários. Certamente,
não há comparação entre o orçamento de um hospital escola e o funcionamento de
um ateliê, ou de um museu, mas, deixar de destinar anualmente um aporte de
recursos compatível com as peculiaridades das atividades artísticas é muito
injusto. Por que os recursos geradas pelos projetos de extensão que captam recursos
financeiros externos,
não
podem
ser
destinados
a
um
fundo exclusivo de cultura? Afinal, tal curso é oferecido sob os auspícios da
PROEX, e suas receitas poderiam ser revertidas também para a manutenção das
áreas cuja identidade com a promoção das culturas é direta. Porém, os poucos
recursos da PROEX, em recente edital, foram destinados, na sua maior parte,
para projetos de ensino. É evidente que não houve grande demanda das áreas de
culturas, mas, tal fato merece atenção, é preciso indagar por que a extensão
está muito identificada com atividades de ensino e, exceção ao Grupo de dança
Badaiô, quase nada com as artes e as culturas.
É preciso que a
construção coletiva de política de culturas contemple a melhoria ds condições
de funcionamento dos cursos de artes, pois, são estes cursos os responsáveis
pela criação artística, eles envolvem um grupo numeroso de alunos e
professores, cujas atividades estão voltadas para vida cultural brasileira. A
política de culturas continuará sendo uma quimera, um bom tema para seminários
como este, enquanto perdurar a mentalidade privatizante que sustenta a fragmentação
da UFU, uma instituição social que deveria ser a promotora da unidade da
diversidade das áreas do conhecimento humano, ao invés disso, os três últimos
anos têm mostrado a escalada do isolamento dessas áreas, que inviabilizam a
manutenção das atividades fins da universidade, dificultam a administração e
o
planejamento estratégico de todas as atividades, inviabilizando projetos que
poderiam ser aglutinadores de ações e de recursos públicos. A crise financeira
faz com que algumas prioridades sejam eleitas em detrimento de tantas outras,
até mesmo a subvenção de eventos estudantis é vista como mais prioritária,
neste momento, que o bom funcionamento dos museus universitários. Brigar por
migalhas é algo que coloca o beligerante abaixo da mediocridade, portanto, não
se constrói projeto cultural coletivo quando há uma escala de prioridades previamente
fixadas,
pois, tudo é prioritário na universidade, de outra maneira, não seria
universidade, seria empresa privada. Enquanto a comunidade universitária não
descobrir que possui cursos de artes, museus, ela não dará importância para o
projeto de construção coletiva da universidade.
A universidade,
apesar do desconhecimento da enorme maioria, possui uma vida cultural intensa,
não se trata da cultura do espetáculo, da subserviência à mídia para estar em
evidência. Desde a sua fundação e apesar das dificuldades financeiras e
estruturais da UFU, o Muna mantém uma programação anual variada e que
privilegia o fazer artístico, oferecendo oficinas e cursos instrumentais de
curta duração nas mais diversas áreas das artes; promove ciclos de filmes de
arte acompanhados de debates; possui uma galeria para exposição de trabalhos
de
artistas plásticos locais e do corpo docente da UFU, dando a merecida
visibilidade para a criação artística local e regional. Todas as atividades são
abertas ao público, principalmente crianças e adolescentes do ensino básico.
O
Muna tenta reverter a lógica irracional do sistema que segrega as camadas
populares, dando-lhes migalhas de cultura: o cinema hollywoodiano no lugar do
teatro, a música comercial no lugar das grandes audições eruditas e dos
espetáculos de música e dança populares. Provavelmente, aqueles que consideram
as artes perfumaria, desconhecem o dia a dia dos cursos de artes e dos seus
Museus. Cultura para este segmento é flanar no Centershoping para depois
assistir as diversas fitas destinadas à apologia da violência — Matrix,
Esterminadores, etc. —, ir até Brasília para ouvir J Quest, Fernanda Abreu e
outros ícones das gravadoras.
É triste saber que
estes cursos que tiveram o privilégio de ter entre seus docentes artistas de
renome internacional — Babinski, Maestro Camargo Guarnieri, Lucimar Bello,
Edmar Ferreti — sejam tão pouco reconhecidos pela comunidade universitária.
Enquanto esta mesma
comunidade universitária não entender que a cultura, naquilo que ela tem de
criação artística, é algo que demanda recursos e merece o mesmo cuidado que as
outras atividades universitárias, corre-se o risco do esvaziamento da
universidade, hoje são as culturas que são suplantadas, amanhã as tecnologias,
pois, os laboratórios das empresas multinacionais são mais eficientes que as instalações
jurássicas das universidades. Enfim, sem culturas não haverá resistência ao
desmanche da identidade nacional, aí então, o coro dos empreendedores universitários
farão eco a Medéia que, após matar os filhos, não parou mais de chorar, não por
tê-los matado, mas porque não teria ninguém para assisti-la em sua velhice.
* Professor Adjunto do Departamento de Filosofia; Diretor da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia.